Estamos ensinando as crianças a lidarem com suas emoções? - ZOOM Education

Estamos ensinando as crianças a lidarem com suas emoções?

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Uma criança entra na escola, a mãe dá um beijo no rosto e, instantes depois, o choro vem. Uma colaboradora, na ânsia de ajudar, diz “não chore a mamãe logo volta”. A mãe de um coleguinha, ao sair da secretaria, depara-se com o aluno aos prantos. Ao saber, dirige-se para a criança dizendo “a mamãe vai ficar triste ao saber que você está chorando…”. A professora chega, senta numa cadeira e oferece o colo. A criança aceita. A professora abraça-a, faz carinho na cabeça e nada diz. Minutos depois, o choro diminui até cessar.
Antes de levantar da cadeira a professora dá um beijinho no rosto e fala “quando sentir saudades da sua família eu te dou um abraço, tá bom?”. A criança consente com a cabeça, levanta do colo da professora e pega em sua mão e, de mãos dadas, elas vão juntas para a sala. Diretora e inspetora se entreolham, não entendem como aquela “mágica” aconteceu e seguem para mais um dia de trabalho na escola.
A “mágica” pode ter vários nomes: empatia, solidariedade, compaixão… O que um simples colo e um abraço afetuoso ensinaram a essa criança? Muitas coisas, por exemplo, segurança para expressar o que está sentindo, o choro como algo natural diante a saudade, acolhimento em um momento difícil, conforto diante da dor da separação de uma pessoa especial.
Quantas vezes nós, adultos, conseguimos enxergar a saída para um problema complexo após ouvir um “está tudo bem e você vai conseguir”? Lembre-se das ocasiões que ao chegar em casa depois de um dia difícil, você ganhou um abraço e sentiu segurança para falar sobre o que estava sentindo. Recorde-se de dos momentos em que estava sentindo algo e você nem sabia o que era. Será raiva? Medo do desconhecido? Saudade? Desespero?
Você já pensou no potencial que temos em nossas mãos de fazer diferente com as nossas crianças hoje? Todos nós conhecemos uma criança, seja um vizinho do mesmo hall no prédio, seja um aluno ou familiar. Todos nós temos a capacidade de fazer diferente e ajudar essas crianças a serem adultos diferentes. Logo, podemos, de alguma maneira, contribuir para a sua formação cidadã.
Tudo isso perpassa pelo desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Há poucos anos que esse termo ficou conhecido, sobretudo após a publicação da Base Nacional Comum Curricular (2017). O documento elucida essa importância ao destinar as competências gerais oito e nove para dissertar a necessidade do trabalho sobre o reconhecimento das emoções e o relacionamento interpessoal.
A BNCC traz a tônica da relevância de abordar esse tema no cotidiano escolar. No entanto, essa discussão iniciou-se ainda na década de 1990. Em 1995, Daniel Goleman inaugurou essa temática ao publicar o livro “A inteligência emocional”. Ele define os cinco pilares da inteligência emocional: conhecer as próprias emoções, controlar as emoções, ter automotivação, ter empatia e saber se relacionar interpessoalmente.
Pessoas que conseguem reconhecer e lidar saudavelmente com suas emoções tendem a ser menos impulsivas, apresentam melhor empregabilidade, interações sociais com qualidade, convivem melhor com a diversidade, atuam assertivamente na resolução de conflitos, mais consciência na tomada de decisões. No tocante a atuação no mercado de trabalho os números são importantes indicadores.
Uma pesquisa realizada em 2020 pela Michael Page mostrou que 91% das demissões de colaboradores foram ocasionadas por fatores comportamentais. Em termos monetários o gasto para as empresas é um fator muito importante, visto que há um investimento tanto na contratação quanto na demissão do funcionário. Na maioria dos casos, a empresa contrata pela competência técnica e desliga por aspectos comportamentais.
O trabalho no âmbito escolar para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais surge, inclusive, para suprir essa lacuna do mercado de trabalho. Cada vez mais a diversidade se faz presente no ambiente corporativo. Surge a pergunta: como o adulto de hoje encara a diversidade se, enquanto criança, não foi ensinado para tal? Essas e tantas outras questões que surgem no dia a dia das empresas deixam evidente o quão importante é o trabalho com o reconhecimento das emoções na infância.
Nunca é tarde para aparar as arestas e seguir um caminho diferente. Sempre é hora da escola se reinventar, sempre é tempo para as famílias aprimorarem suas ações, gestos e palavras dentro de suas casas. Em qualquer momento você pode ser o abraço da criança ou do adulto, o colo no momento de desespero, a palavra amiga no momento da desesperança. A palavra-chave é conexão. Conecte-se com o outro, assim como fez a professora lá do início.
Por: Vanessa Maganhoto

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